domingo, 23 de janeiro de 2011

O TEATRO

PALHAÇO BÊBADO (CHICO EDUARDO)

Em algum lugar existe um bar, e nele há uma mesa ocupada por uma única pessoa, ela busca a companhia de bebidas e conversa com seu copo de uísque, observando todos ao redor.
Tudo ali gira de uma forma mágica, como se vivesse em um mundo paralelo onde não há regras, não há problemas, não há inimigos, não há limites.
Ele se equilibra em suas pernas como se aprendesse a andar, sorri descaradamente para as damas ausentes e brinda aos motivos ébrios e fúteis.
Ele sonha com as impossibilidades e canta a música que toca ao fundo, como se fosse um artista em seu palco ele encarna o personagem e ignora os tolos que não compreendem o que se passa ali.
A mais bela encenação existente, um ser totalmente sem mascaras e sem fingimentos mostrando como todos gostariam de ser, feliz ele se equilibra em uma única perna e desafia a gravidade, cai e levanta, ri de si mesmo, e persiste a tentar novamente, nunca desistiu de nada e não será por um tombo que começará.
Ele valsa a música que só ele escuta, e quer que todos sejam seus amigos, sai abraçando a todos sem reservas, sem pudor, é uma pena que ele não possa se abraçar.
Ele se torna um homem rico cercado de amigos e paga a todos uma rodada, ele é solitário e vive em um teatro, onde o único que realmente vive é ele.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A RAINHA ESCARLATE


Gustav Klimt "adão e eva"



Brasil, 1932.




Deslizou as mãos pelo vestido escarlate estendido sobre a cama, sua seda macia e brilhante fizeram as lembranças de anos vividos retornarem à memória tão ressequida pelo tempo, tempos áureos onde as cores vivas se estendiam por sua pele e por seus cabelos, trazendo filas infinitas de homens à sua porta dispostos a tudo e a pagar qualquer preço por um pouco de sua atenção, levantou-se e caminhou até o espelho, sentou-se em sua penteadeira e iniciou um ritual sagrado que se repetia por incontáveis anos, passou o rouge nas faces e nos lábios, chamou Verônica, uma de suas meninas mais promissoras, que entrou em seu quarto com seu sorriso mais descarado.

─ Madame Gabrielle, o salão está lotado, tens que descer logo, todos perguntam como está sua saúde.

─ Verônica, faça um de seus penteados, um digno de minha pessoa, esta é a ultima noite que visto o vermelho.

Madame Gabrielle voltou aos seus devaneios, enquanto Verônica tagarelava sem parar e iniciava o penteado em seus cabelos, olhou-se no espelho, seus olhos cor de jade já não tinham o mesmo brilho como na sua juventude, seus cabelos ruivos agora estavam quase totalmente brancos, com exceção de algumas mechas vermelhas que produziam um contraste interessante na cortesã, sua pele continuava alva, porém o tempo deixou suas marcas, demonstrado toda sua crueldade, concluiu com desgosto que sua vida passou muito rápido, mas que guardava em sua memória cada minuto do que viveu. Não se recordava de sua vida antes de se tornar uma cortesã, bloqueou essas lembranças para não se tornar fraca e vulnerável diante daqueles que sentem prazer provocando dor física e psicológica.

Lembrava-se de sua primeira vez, uma dolorosa lembrança com um velho tropeiro grotesco que a fez sentir nojo e dor, o odor de cachaça e sujeira. A experiência foi humilhante e cruel para uma moça que foi obrigada a recorrer a sua própria carne para não morrer de fome. Depois daquele dia, decidiu que era insensível, pois ser assim tornava tudo mais fácil, porém, certo dia a sorte finalmente resolveu aparecer, um forasteiro de passagem no fim do mundo onde a pequena se submetia a esses caprichos encantou-se com sua beleza exótica, iniciou-se um jogo de sedução e prazer, carnes, cabelos emaranhados, dedos e apertos, somente as lembranças destes momentos faziam com que a chama da paixão reacendesse no interior da mulher que vivia a proporcionar essas sensações. O homem que despertou tantas emoções naquela jovem chamava-se Julian, alto, com uma pele de tom bronzeado, cabelos negros, com alguns fios grisalhos na lateral, um sorriso branco e farto, coisa rara naquela localidade. Foi ele que a conduziu do nada ao tudo, a tirou do interior e a colocou na cidade do Rio de janeiro, foram amantes e amigos e escandalizaram toda a aristocracia com a falta de pudor apaixonada que demonstravam.

Toda bonança tem seu fim, e era obvio que aqueles tempos também acabariam, Julian viu-se obrigado a escolher entre a mulher perdida e sua fortuna, pois os pais ameaçaram deserda-lo, e como mulher sensata, Gabrielle retirou-se de cena, ganhou uma considerável quantia de Julian, com a qual abriu o prostíbulo que passou a ser sua razão de viver, e o céu de muitos homens. Sua casa era conhecida como “Monte Olimpo”, uma referencia a casa dos Deuses gregos, dizia-se que o “Monte Olimpo” era o lugar onde os cariocas da mais alta estirpe sucumbiam aos prazeres da carne e onde as Ninfas e Deusas mais belas estavam aguardando para proporcionar prazer.

─ Pronto! Está lindo Madame. Agora se Madame não necessitar mais de meus serviços, descerei para receber os clientes.

─ Pode descer minha querida e lembre-se sempre Verônica, de manter o sorriso no rosto, pois aqui é onde damos alegria e paz aos que não conseguem em seu lar.

─Sempre Madame.

Com a saída de Verônica, Madame Gabrielle encheu seu copo de absinto, acendeu um cigarro, caminhou até a janela e ficou observando as estrelas. Voltou-se até a cama e vestiu o vermelho que a deixou conhecida por muitos como a rainha escarlate da paixão, abriu a gaveta do criado mudo e pegou o pequeno frasco com conteúdo precioso, despejou o líquido em sua taça de absinto e ingeriu de uma só vez.

Deitou-se serenamente em sua ampla cama, fechou os olhos e morreu sorridente, seu ultimo pensamento foi Julian, recebera a notícia de sua morte naquela manhã, ele foi a única pessoa que ela amou e as melhores lembranças, a sua vida se foi com ele, viveu para amar e morreu amando e cada vez que se deitou pensou nele, cada toque de outro homem sentiu os toques dele, cada minuto de prazer foi projetado em sua imaginação ao seu amado, entregou sua alma e foi sua perdição, não havia lugar para amor na vida que escolheu, ou se vive o amor ou acaba-se junto com ele.






















segunda-feira, 13 de setembro de 2010

(Aos homens, o texto abaixo é apenas uma brincadeira, não se zanguem)

Toulouse Lautrec
Monólogo de Uma Feminista


“A utopia do relacionamento: Não há “amor recíproco feliz”, somente um momento ilusório, onde tende-se a imaginar que está no relacionamento perfeito, quando isto não existe. Tende-se a perdoar atos injustos, ferindo nosso princípio de honra, integridade moral, a troco de nada.”







─ Ok! Peguei pesado, mas é mais ou menos isso que os homens fazem com nós mulheres delicadas e sonhadoras, nos iludem e nos moldam ao seu escárnio de prazer e muitas acham isto tudo. Eu quero muito mais, minha alma evoluiu, são séculos de manipulação masculina, agora é minha vez.



─Me chamo Georgiana, não sei bem o porquê, acredito que isso se deve ao fato de minha mãe ser uma fissurada no livro “Orgulho e Preconceito” de Jane Austen, talvez pela duquesa, ou fui um bebê com cara de macho, e por não poder me chamar George, chamou-me Georgiana.



─Hipóteses e hipóteses, muito bem, isso não vem ao caso, a grande questão é que tive uma ideia revolucionária... fundarei um partido político.



─ Ah! Não faça essa cara de espanto, sim, porquê não?



─ Um partido político que se chamará “Revolucionárias Esquerdistas Centradas em Idéias Feministas Extremistas” ou simplesmente ( RECIFE).



─ Eu sei que você acha que estou pirada, mas simplesmente sou uma moça cansada de sofrer injustiças, como: Não receber um telefonema no dia seguinte, ser ignorada pelo homem com imaginava casar e ter filhos.



─ E isso dói, dói muito... Só que está dor só dura até descobrir que ele já é casado e pai de cinco filhos.



─ Ai a dor vira alívio por não ter parado de tomar a pílula, pois com certeza a pensão séria péssima, com tantas bocas para ele alimentar.



─ Enfim com base no meu histórico de sofrimento nas mãos de crápulas, decidir fundar um partido político, mas ainda não sei por onde começar.



─ Todo partido tem uma ideologia, a minha ideologia pode partir do seguinte pré suposto: Deixo bem claro que a economia do país continuará capitalista, mas os homens em si tornaram-se “pessoas” socialistas.






Explico: Teoricamente e utopicamente, em um país socialista o governo é dono de tudo, o meu partido levantará a bandeira dos homens tornarem-se “bens” do Estado, para usufruto da população feminina em geral.



─ Em resumo, não haverá mais casamento, nem namoro, nem noivado, os homens ficaram a disposição feminina, sem o direito de falar, ou tentar ludibriar nossos corações já tão machucados.



─ Qualquer tentativa de rebelião por parte deles, será tratado a mãos de ferro ( Risos).



─Acho que me empolguei, isso está mais parecido com ditadura do que com o socialismo, e olha o que conseguir: Juntar ideais tão opostos em uma única finalidade “ o bem de todas as mulheres da nação”.



─ Bom vou-me agora, se houver mais delírios de uma feminista, eu volto, Caso contrário viverei mais uma desilusão.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

JOSY

(Imagem: Autor desconhecido)

Ao primeiro olhar a detestei
Uma antipatia mútua
Um desequilíbrio de órbitas
Divergências de idéias e opiniões.


Iniciamos uma batalha de idéias
Onde a grande conquista
Era uma amizade já conquistada.


E o prêmio da autonomia rebelou-se contra nós
Obrigando-nos a enfrentar a mais forte realidade
De que não havia motivos para guerra
Devíamos viver em paz.


Aprendemos a conviver, a aceitar as diferenças
Cada passo de uma vez, em uma longa caminhada
Corremos, paramos, respiramos
Traçamos uma história independente e surreal.


E hoje permanecemos juntas nessa louca amizade
Até quando? Só o tempo dirá
O fato é que nos forjamos ao nosso ideal de realidade.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

ARDOR

(Imagem: Toulouse Lautrec)

Sempre observei seu andar pela rua
Sua dança ao luar prateado
Suas curvas sorrindo para mim

O vento bagunçando seu cabelo quando rodopiavas
Ao som da música orquestrada pelo mar

Respirava seu perfume, exalado de uma flor rara
Guardava seus sorrisos em um filme constante
Um romance clichê, que insiste em passar em minha memória

Chorei cada vez que seu rosto estava triste
E me extasiei com sua alegria
Entreguei meu ser a ti
Sem nada pedir
Sem nada esperar
E fui feliz enquanto te pertenci

Fui paixão, fogo, entrega
Sangue fervente, saliva, suor
Fui beijos, abraços, fui voz e gemidos

Fomos pêlos e pele, fomos dor e paixão
Fomos magia, inspiração
Uma quimera inimaginada e totalmente sem tradução

Somos sem compreensão, a mais pura sensação
Somos traição e amor
Sempre sem comparação
Ardor


domingo, 23 de maio de 2010

DEVANEIO

Um brinde as voltas da vida
Esse louco carrossel
que guia nosso destino
descendo e subindo ao céu

Um brinde ao grande moinho
que se tornou nosso mundo
o vento que nele passa
se reproduz no futuro
 Um brinde ao caos e a sua teoria
aos que não conseguem notá-lo
e ao sopro que hoje faço tormenta de meu passado

Um brinde ao jovem poeta
esse louco sonhador
que enfrenta ao gigante moinho
e se joga no abismo na busca do puro amor

Um gole ao amor insano, dominador de minha alma
que me leva as tormentas do mundo
no sobe e desce da vida e que me rasga as feridas
me torna paixão em vida e te faz possuídor de mim.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

UM SER DESCONHECIDO


Fostes meu tudo, minha paixão incondicional
os meus sonhos, as melodias
meu chão, meu alicerce.

Foste a brisa da manhã que me acariciava
tu eras a pólvora, o ciúmes, a brasa, o arrebatamento
desejo intenso, foste paixão
a harmonia da dança, a intensidade do meu coração.

És ilusão, és fracasso e dor
decepção, tempestade em dia de sol
falsas promessas de dias de verão.
sonhos destruídos, queimadura de minha alma (Amor)
És a mentira a desilusão
o veneno da beleza da paixão
o algoz de meus desejos mais sublimes
foste minha inspiração, és um desconhecido.
Sou a eterna busca de sua face

terça-feira, 15 de setembro de 2009

REDUTO DE INSPIRAÇÃO


Foi com um desafio do amigo Antonio que nasceu o texto abaixo, um personagem masculino em meio a tantos femininos que aqui concentro.



Meu nome é João Luiz e tenho trinta e um anos, sempre gostei das noitadas e futilidades, vivi tão loucamente, tão intensamente e ainda assim faltou algo, havia um vazio infindável na minha vida. Adorei minha liberdade e a respirei tão profundamente que doeu no fundo da minha alma.


Em uma certa manhã, acordei para vida como todos os dias, mais havia algo especial, haviam várias perguntas, sentimentos estranhos, paralisei diante da minha dúvida, da minha falta de perspectiva, da procura pelo desconhecido. Parti naquela viajem não programada , buscando entender o nada, fui de encontro ao infinito e procurando o finito para alguns atos meus.


Sentado naquela praça conheci aquela que me mostrou o caminho da verdade, aquela deusa grega, a beleza personificada, madura e imaculada, tudo que sempre desejei.
Voltei a adolescência, e como um garoto bobo, flertei com olhar sorridente, fiquei receoso e no impulso da coragem a convidei para sair.


Ela pensou, declinou e por fim aceitou com aquele sorriso que me desarmou completamente, sugeri um bar, ela preferiu cinema, e há quanto tempo eu não entrava em um. Rosa foi tão meiga , tão doce, tão original, realmente única.
Com ela fiz coisas que nunca imaginei, nunca desejei, e que se tornaram os melhores momentos da minha vida. Nos amamos desde o primeiro olhar, fomos ao teatro, ao cinema, a piquenique e vivemos intensamente cada minuto que passamos juntos.
Certo dia em um vasto campo depois de provamos de delicias saborosas, ela sentou ao meu lado e declamou :


Sentada na grama,
escuto você respirar
meu corpo anseia por seu toque
imagino – te em mim, espero seu olhar
a dor da separação me consome
necessito, espero, clamo
esqueça por hoje o mundo
mergulhe em meus braços
e se eternize em meu sonhos
oh ! meu amado


Perguntei encantado como rosa conseguiu dizer coisas tão doces, palavras tão lindas, ela disse que era voz da alma, era tudo que desejava, sentia, era o amor, o fogo, a paixão. Os dias que passei com Rosa foram os melhores de minha vida, descobri que tudo que vivi antes foi vazio, foi sem graça, foi sem tesão. Depois de Rosa o vazio estava completo eu estava inteiro .
De repente tudo acabou, Rosa partiu sem dizer adeus, sem se despedir, somente deixou um bilhete no qual dizia :



Amado João


Não sou digna, nem poderia aceitar ser feliz
meu destino é sofrer e a ele estou resignada, não tente me entender,
a você peço somente que me esqueça
e que viva e aproveite a vida, seja feliz.


Eternamente sua,

Rosa.


Nunca esquecerei Rosa, ela me mostrou um novo mundo, me inspirou e sinto como se ela ainda estivesse comigo, dentro do meu coração, os motivos que a levaram para longe nunca poderei compreender, más ainda amo o que ela significa em minha vida.



À Rosa


Esperei por você toda minha vida
Idealizada nos parâmetros do amor
Forjada da alegria, desenvolvida pela amizade
Sustentada pela cumplicidade, alojou-se em mim
Sendo parte de meu coração


Presença constante de meus pensamentos
Alimento de minha emoção
Combustível de minha trajetória
Essência de minha alma
Minha doce Inspiração


Nem a mais suave pétala se compara a maciez de sua pele.
Oh! flor mais linda de meu jardim
Rosa imaculada e desejada
És a ilha em meio a tormenta do oceano
Meu oásis na aridez do deserto
Minha esperança e salvação

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A DOR DA ALMA


“ Algumas pessoas não conhecem a grandiosidade de sua existência, nunca entenderam como um pequeno ato pode mudar totalmente o destino e na maioria das vezes permanecem adormecidas."


A expectativa de um futuro desconhecido era inebriante, os gritos sufocados no funda da garganta e os pensamentos revoltos estavam cada vez mais escassos, mas a vontade de possuir o desconhecido ainda era imperial.
Aquela senhora nunca planejava nada, sem ideal de amanhã, vivia cada minuto na busca de algo que pudesse tornar sua pacata existência em uma emocionante aventura, tinha verdadeira repulsa a rotina e imaginava que exatamente por esse motivo a rotina insistia em se instalar em sua vida, tornando-a cada vez mais ansiosa e irritante.
Desejava ardentemente emoção, queria adrenalina nas veias, queria sentir o gosto do perigo, não tinha nada a perder, e as emoções que as aventuras idealizadas poderiam lhe proporcionar somariam experiências sinistras em sua bagagem, e assim sendo, ansiando pelo perigo se empenhava ao máximo em pensamentos e desejos avassaladores, para que houvessem mais sonhos ou melhor pesadelos tortuosos.


Esperava e nem ao menos imaginava o que queria, mas tinha a certeza de que algo a buscava, algo a procurava, a atraia como um imã, e ela abria os braços para esse magnetismo desconhecido na esperança de que fosse o fim da busca que nem mesmo ela compreendia, mas tinha a certeza de que quando encontrasse, conseguiria preencher o estranho vazio que sentia, saberia identificar a razão de sua inquietude e encontraria a cura para a misteriosa tormenta de sua alma.


Acordou abruptamente naquela madrugada com o rosto encharcado de suor, sua respiração ofegante não deixava dúvidas de outro terrível pesadelo, no qual se via envolta a neblina, em um túnel deserto e desconhecido, e na gelada escuridão viu-se perseguida por um estranho, uma figura sem rosto, que tentava a todo custo alcançá-la e quando finalmente atingia seu objetivo, tornando a indefesa senhora cativa de seus braços, ela acordava assustada.


O alivio que se seguia era notório, mas havia a consciência de que seus devaneios e utopias estavam em evidencia em seus sonhos noturnos e esse fato a perturbava.


A grande questão que até o momento não foi colocada é que essa mulher tinha um dom especial, algo que foge do real, ou seria esse seu dom fruto de sua imaginação, a questão é, ela conseguia manipular seus sonhos, de modo a conduzi-los a seu prazer, onde sempre se encontrava em situações de risco, onde sua vida sempre estava por um fio, e manipulava os sonhos com uma destreza espetacular.

Até aquela noite teve um êxito esplendido, porém de repente surgiu uma sinistra figura e passou a persegui-la, tudo fugiu de seu controle, e algo dizia que aquele era seu destino, brincou tanto com a sorte, que ela resolveu se vingar e foi perseguida em seu inconsciente por algo, um vazio que a consumia e não havia nada a fazer, ela temia dormir mas o encontro era inevitável.


Uma névoa cobria sua visão, caminhou vacilante buscando uma referência de onde estava, até que finalmente visualizou um ponto de luz e seguiu em sua direção, teve a certeza de que estava em um túnel e o tremor de seu corpo se intensificava a cada passo que dava em direção a luz, sabia que era mais um de seus sonhos mas não como voltar. 


Caminhou mais alguns metros até atingir um grande arco que parecia ser marco dos limites entre as trevas e a luz, e lá a dúvida e o medo a possuíram, deu um passo para atravessar a fronteira. Subitamente algo a puxou e no segundo seguinte ela acordava em sua cama, com um suspiro constatou que era um sonho, o mesmo que há tempos a consumia.


Na noite seguinte, houve uma surpresa, após tanto tempo vivendo um Déjà vu em sonhos, nem imaginava o que a esperava. Atravessou a fronteira aflita e determinada e não acordou em sua cama como de costume, entrou em uma sala totalmente iluminada, sentia-se suja em relação a energia que emanava daquele lugar.


Outra pessoa rompeu as barreiras da luz e invadiu a enigmática sala, era seu perseguidor, a figura das sombras que a inquietava, porém agora podia ver o rosto de seu algoz, estava cara a cara com a dura realidade de sua alma, o impacto da descoberta a petrificou por instantes, estava diante de si própria, um outro aspecto de sua alma que até aquele momento ignorava, a outra inquieta figura contorcia-se como se a dor oprimida fosse muito intensa.



Seus tremores voltaram diante daquela revelação, e meio que telepaticamente viu em sua mente as imagens que causavam tanta dor a sua desconhecida e desprezada alma, caiu aos prantos com a força das lembranças, e solidaria pela primeira vez em anos abraçou a si própria caída no chão, afagando os cabelos de sua outra parte e fundindo-se a ela no mesmo instante em que a luz da sala se apoderou de toda a escuridão do túnel e a mulher completa caminhou para luz.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

DENTRO DE TI

Deslize os dedos pelos meus braços e me abrace em um gesto de posse no qual eu ficarei abrigada no local mais caloroso e seguro, seu coração.

Como um tesouro a ser protegido, uma flor rara e única a ser regada com o néctar do amor, serei por ti amada.

Pois eu sou aquela que embriaga seus pensamentos, a que te pertence, a que vive intensamente.
Sou sua fortaleza, teu mar, teu céu, teu ar, a insanidade, e de tanto ser : transbordo desejo, e me coloco dentro de ti.