quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

SAUDOSISMO

Saudades esta que sinto que faz o peito doer.
Daquilo que nunca tive e do tempo que não cheguei a ver.
Nostalgia suplantada pela doce vocação de viver em outra época.
Talvez em outra nação.

Melodias embalam minha breve divagação.
Da natureza humana e sua eterna insatisfação.
Pensamentos sobre o que vejo, sinto e quero ser.
De um tempo no qual eu nem sonhava em nascer.

As espirais do tempo giram com rapidez.
As rugas aparecem, crianças correm, pessoas morrem.
Rebeldes sem causa, outros talvez.
Assim sempre foi... Sempre será... Não sei.

Profundo saudosismo existe em saber
Que a vida continua.
Que a humanidade segue cheia de erros e acertos.
Repleta de esperança por dias melhores.

Segundos...
Minutos...
Horas...

Tempo encantado em todo esplendor de sua glória. 
Percorre as veias do espaço e se forma passado na memória inóspita.
E a expectativa do caminho que se apresenta em um novo começo...      



Ah! Essa é essencial para se viver.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

MADALENA

Night Windows ( Edward Hooper)

“A explicação da paixão está em uma garrafa de cerveja, ela sabe as respostas da dor, a dor que no fundo não existe. Ela sabe seus desejos, desejos induzidos, ela te ama e te hipnotiza, para lhe proporcionar prazer”.


Através da janela, escondido atrás da cortina ele a observava, contemplava seu objeto de fascínio e desejo como fazia todos os dias desde que se mudou para aquele lugar. Sua vizinha que habita no apartamento da frente e que por ironia do destino possui a localização do quarto estrategicamente em frente ao seu, proporcionando visões cotidianas, às vezes tediosas e em sua maioria sexuais.
Marcos a contemplava sem remorso, ela era sua Afrodite, sua Diana e todas as personificações possíveis de deusas, e em sua fértil fantasia ela lhe pertencia, ele a possuía a todo o momento e permitia a ela refestela-se com o outro, pois aquilo era seu prazer. Ele escrevia todas as cenas que via e que imaginava da sua diva sem nome, haviam páginas e páginas arquivadas com as histórias frutos de seus pensamentos, seus sonhos e imaginação, sua musa inspiradora era para ele uma mulher extraordinária e somente sua visão já o deixava totalmente exasperado pelo tormento de não poder tocá-la. 
Ele mal se alimentava pensando naquela mulher intrigante, e quando o filme em sua janela se iniciava era o paraíso, ele observava as curvas de seu corpo e seus movimentos rítmicos, subia aos céus com a visão de seus seios que pareciam olhar para ele, sabendo de seus segredos, de sua depravação. Escondia-se mais para não ser visto e sentia-se cada vez mais febril de fome pela visão. Corria a seus textos e digitava insanamente cenas que surgiam em sua mente, o fato é que ele nunca havia falado com aquela mulher, nem sabia seu nome, mas a apelidara de Madalena, como uma cigana ela o enfeitiçara com sua beleza, transformou-se em sua fonte de inspiração, ele vivia por espera-la e escrever os acontecimentos sórdidos e banais que sua mente fantasiava eram o alimento para seu espírito.
Entregou-se ao vício do álcool como um refúgio para as vagas horas de espera e neste desespero inconstante e surreal devaneou junto ao inconsciente, futilidades cotidianas.
...
 ─ O estomago rosna, grita insano, pedindo saciação, pedindo feijão.
─ E a linda mulata atende tão prontamente, juntando a farinha, e saciando a sede com o sangue de Baco. 
─ Oh! Sangue doce este, haja fome! ─ Só não de sabe de que.
...
Diga-me como conseguistes arrancar um pedaço de mim, sem derramar nenhuma gota de meu sangue.
Foi à forma mais cruel, foi intenso e segue sendo a forma mais sublime de me matar.
Se posso viver só? A resposta é não.
Alimento-me das lembranças dos sonhos e do que não vivemos, mas que imagino com perfeição.
Sigo sentindo amor e espero que sejas feliz.
Embriago-me no calor do vinho, e sinto desejos intensos como deve ser uma paixão.
Espero por ti e sonho.
...
Permita-me sentir uma ultima vez o teu gosto e contemplar, fotografando em minha mente cada milímetro de teu rosto.
E possuir como se fosse à primeira vez o teu corpo.
Perdoe essa minha alma escrava do desejo por ti
Que procura intensamente em outros corpos saciar a sede de sua saliva
Do cheiro de tua pele, do teu sabor proibido.
Liberta-me dessa obsessão de ter alguns instantes perto de você.
Liberte-se de mim, pois a loucura possuidora de minha alma destruíra a todos.
Como faz em meu interior.
Porém, se por ventura, decidir mudar seus planos.
Devorarei tua carne e beberei teu sangue 
E em sacrifício do meu amor por ti. 
Permita-me imortalizar-te em mim.

(Fragmentos dos textos de Marcos)

Os dias eram frios... Apesar do sol brilhante, os dias eram frios.
Marcos levantou naquela manhã como sempre fazia, sua vida seguia uma rotina deprimente, sentia-se como um robô programado para fazer sempre o mesmo, isso o estava corroendo, ele queria gritar, dizer aos quatro cantos do mundo que se sentia parte de algo maior, que não queria ser mais uma pessoa sem emoção, sem vida e sem lembranças de momentos felizes. Queria viver sua vida de amor, de poesia, de música, arte e boêmia, ele queria acordar cedo, ir a praia, produzir seus textos e lá pelas tantas tomar uma cerveja, olhando as sereias que eram sua fonte de inspiração.
Mas o destino traiçoeiro e brincalhão conduziu um enredo diferente para aquele humilde rapaz, o pobre moço acorda com um barulhento despertador toda manhã, e segue esta rotina de segunda a sábado. Sonolento caminha para o banheiro onde se apronta ligeiro, logo depois toma um café requentado e vai todo apressado a quitanda do seu Zé dos centavos.
Marcos pensa que a sorte é uma víbora que brinca com os destinos, fazendo dos sonhos pó e do pó sonhos. Ele que sonhara ser um escritor conhecido, e agora para continuar existindo, não pode se dedicar totalmente ao que lhe proporciona prazer. 
E por capricho do destino conseguiu que seu Zé dos centavos homem conhecido por sua avareza, lhe empregasse na quitanda do bairro; “Fome não passaria!”.
Todo dia Marcos trabalhava meio expediente na quitanda e quando dava sua hora de partir sorria e se despedia, caminhando de volta para o pequeno apartamento que dividia com um amigo recente, um homem chamado Luiz.
As lembranças da forma como se conheceram sempre o faziam rir, uma noite qualquer, em um bar por ai, estava Marcos observando o movimento da noite, pessoas rindo, dançando, bebendo, fumando e eis que de repente surge Luiz, pede licença para sentar-se com Marcos, diz que não suporta beber sozinho, faz um comentário sobre a noite, começam a discutir temas banais e logo descobrem que compartilham coisas em comum.
A primeira coisa: ambos procuravam uma casa para alugar com urgência, Luiz disse a Marcos que havia chegado à cidade há alguns dias, que conseguiu trabalho em uma livraria e que estavam hospedados na casa de parentes distantes, uns primos de sua mãe.
A segunda coisa: Possuíam recursos escassos, o custo de vida naquela cidade era alto, mas ali a sorte sorria melhor para todos, era arriscar ou conformar-se em não tentar e coragem não faltava aos dois.
A terceira coisa: Precisavam de privacidade para colocar seus planos em prática, Marcos para produzir, e Luiz pretendia estudar, se especializar. Era um termo cômodo no acordo.
A quarta: Amavam a noite e toda a magia e sensações que somente um copo de cerveja, uma conversa agradável e uma bela melodia ao fundo podem proporcionar.
O acordo de unir forças foi abençoado e logo conseguiram aquele apartamento no segundo andar de um prédio antigo, em uma rua predominante de moradias, onde havia também uma padaria e um bordel que ficava na esquina.
─ Ah! O puteiro da Carlotinha.
Um antro de ninfas do prazer, os antigos moradores da região contam que diversos casamentos tiveram seus alicerces abalados depois que o bordel se instalou ali. Marcos visitou o lugar uma vez junto com seu amigo Luiz, o lugar tinha uma luz bruxuleante, finos tecidos estampados em tons vermelho e laranja se espalhava pelo ambiente e tornavam a decoração do lugar excitante, nas paredes havia alguns quadros com posições do kama sutra e uma reprodução de um quadro de Lautrec onde há uma mulher de cabelos ruivos e de nádegas avantajadas agachadas. Era realmente um convite a luxuria, ao pecado e ao prazer.
Carlotinha, como era conhecida a dona do bordel, uma figura encantadora apesar de sua idade já avançada, que Marcos nem ousava tentar estimar. Havia as moças que na casa moravam e que foram apelidadas pelos frequentadores de “Filhas de Afrodite” por proporcionarem prazeres mitológicos. 
Ali era um ótimo lugar para relaxar e aproveitar os prazeres da carne, isso para os homens que apreciam a depravação e o prazer desvirtuado. Marcos não era casto, mas tinha alma de poeta sonhador e idealizava viver um grande amor, evitava o quanto possível ter relações que traiam esse princípio romântico de sua natureza, mas gostava de ir ao puteiro da Carlotinha (como ele se referia ao lugar), para se inspirar, para descrever poeticamente o pecado, a libido o desejo que se apoderava do homem em sua forma mais devassa.
...
“Me Pergunto onde está a inspiração
Busco-lhe
Venha a mim
Para que minha alma obscura irradie a luz da paixão
Luz que um dia brilhou, através das palavras do coração”
...
Sentado como um rei observo 
Desbravadores a procura de um tesouro
A fonte inesgotável de prazer
Com suas mãos escalam montes curvilíneos
Picos perigosos para os principiantes nas artes do prazer
Estes afogam-se nas salivas lascivas e se perdem
O caminho é longo e abundante ao oferecer a mais bela vista que um homem pode querer
E quando a longa caminhada cobra seu preço
A sede vem queimando a garganta de uma forma desesperadora
E ao encontrar a fonte da ninfa adorada
Esbaldar-se-á no âmago de sua adoração com lábios ávidos
Língua nervosa, frenética por saciar-se 
E ao ouvir o brado final
Recolhe enfim a ultima gota, sua recompensa por sua expedição noturna.

(Fragmentos dos textos de Marcos)




De volta ao reduto, Marcos aguardava em seu lugar estrategicamente posicionado a aparição de sua madalena, e lá pelas tantas ela surgia, com sua beleza etérea, longos cabelos negros como a noite, rosto sublime, angelical.
Ela olhava pela janela em sua direção, como se pudesse vê-lo escondido pelas frestas das persianas de sua janela. Madalena tirava sua roupa com um sorriso misterioso nos lábios, um olhar intenso e safado e logo mãos começaram a alisar seu corpo nu.
Aquelas mãos pertenciam ao outro, o homem que sempre a possuía, seu marido.
Eram cenas intensas que rasgavam o coração de marcos, estimulavam seu desejo e desesperava seu ciúme, misturas de sentimentos controversos o possuíam de forma tão intensa, e escrevia as imagens, o desejo, os sonhos em papéis aleatoriamente.
Sua rotina assim seguia desequilibrada trabalhava, vadiava, observava e  escrevia. Com o passar do tempo as coisas foram se tornando vazias, como se algo o consumisse e deixasse um buraco no seu interior, pois o que o saciava, hoje provoca mais fome, uma vontade de mais, sem saber mais do que. 
E desta forma preferia ficar observando Madalena sempre que podia, todos os dias, obsessivamente, era o que aliviava suas emoções, a ideia de tê-la em seus braços era avassaladora, um imã que o levava a loucura, todos os dias, mais e mais.
Vislumbrava em sua memória o corpo de Madalena, o seu rosto, suas curvas, imaginava o suor escorrendo pelos seios enquanto ela deslizava suavemente em seus braços, sussurros ao pé do ouvido, seu nome em uma voz feminina, doce, suave e arfante e acordava do sonho como um adolescente na casa da puberdade.
Passaram-se dias e meses nesta insanidade, até o fatídico dia, em que Marcos acordou totalmente perdido no tempo, há tempos não via seu amigo Luiz, ambos seguiam seus caminhos, e o de Marcos foi o da auto reclusão, sua necessidade de acompanhar Madalena a distância. Naquela manhã porém Madalena não apareceu, e durante todo o dia foi assim, Marcos pregado na Janela, aguardando uma visão de sua amada, e não havia sinais dela no apartamento da frente. 
O desespero tomou conta de marcos que fez vigília durante toda a noite e na manhã do dia seguinte, já tomado por uma loucura, saiu de seu apartamento decidido a descobrir onde estava Madalena, desceu as escadas, passou pelo porteiro acenando a cabeça, atravessou a rua, e encontrou-se diante do prédio de madalena.
Cumprimentado com um bom dia, sorriu ao porteiro e perguntou se ele saberia informar se a moça que morava no prédio do terceiro andar estava em casa.
O porteiro fez uma cara de surpresa e logo respondeu que há um ano não havia ninguém morando no terceiro andar, perguntou se Marcos não estava enganado quanto ao apartamento da moça em questão.
Marcos convicto disso que tinha certeza que era no do terceiro andar, que era uma moça de cabelos negros. 
O porteiro então o levou até o apartamento do terceiro andar, abriu as portas e disse:
─ Este apartamento está fechado, a família do antigo dono colocou a venda com tudo dentro, mas quando as pessoas sabem da desgraça que ocorreu aqui, desistem, ninguém quer comprar.
─A moça que o senhor veio procurar é esta? ─ Perguntou apontando para um porta retrato.
─ Marcos viu a imagem de Madalena sem entender, ele tinha certeza que era ela.
─ O que aconteceu? ─ Perguntou ao porteiro.
─ Em uma noite, o marido ciumento a matou e se matou logo em seguida, foi uma tragédia.
Marcos não acreditava nas palavras do porteiro, tentava encontrar uma resposta para aquela loucura, foi andando pelo apartamento, entrou no quarto e olhou a janela agora fechada, caminhou até ela e abriu, tendo a vista para seu quarto, e quando olhou fixamente a viu, como se estivesse esperando por ele, no lugar onde sempre a imaginou, em seu quarto.

Saiu desatinado do apartamento, agradecendo ao porteiro enquanto ia desesperado ao encontro de madalena, jogou-se a correr pela rua e foi atingido por um carro, sendo lançado longe na calçada, Marcos desfalecendo olhou para sua Janela e viu longos cabelos negros esvoaçados, seus escritos lançados ao vento, todo seu trabalho caiam, alguns sobre seu sangue e ouviu uma gargalhada de Madalena e antes de fechar os olhos e morrer ouviu a voz com que tanto sonhara sussurrar.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

REFLEXO

Com o coração arredio
Fui caminhando tranquilo
Buscando um amor perdido
Encontrei-me a beira mar.

Com os pés fincados na areia
Sonhava sob as estrelas
Cantava as ondas do mar.

Com nostalgia no peito
Lembrei do tempo perfeito
Que as belezas mais simples
Viviam a me encantar.

Senti a brisa no rosto
Ouvi o cantar dos pássaros
Até o nascer do sol, o dia anunciar.

Corri em direção ao mato
Para na árvore trepar
Comi o fruto no galho
Para a fome saciar.

Sorri sem recato
Como um tolo que não enxerga
As belezas a admirar.

E logo ali do outro lado
Um moço sorrindo engraçado
Derrabava árvores, espantava pássaros,
Subia seus edifícios, sem a vida respeitar.

E para minha consternação
Naquele instante percebi
Aquele moço que estava ali

Era minha imagem a matar.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O caminho


Na margem da estrada sem fim,
Caminhando solitário
Encontrei-me com Vinicius

Homem com medo de muros
Que preza sua liberdade
Que adora a simplicidade
Que busca uma realidade que nem sabe se existe.

Vinicius tem a alma de criança,
E leva a vida como uma dança
Sem regras, sem freios, somente desafios.

Olhando o espelho do passado
Ele caminha desgovernado
Enxuga lágrimas que havia derramado
Com as lembranças daqueles retratados na memória de tempos felizes.

E para recomeçar a dança,
Ele se encontra com a criança que vive dentro de si
E saí rodopiando, em busca daqueles sonhos de seu tempo de menino,
Prezando somente a honestidade dos transeuntes
Ele vive intensamente por todo o caminho... até o fim.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Prosopopéia Lunar



Nas ruas, nos bares, nas mentes, nos montes imagina-se a magia dominar:

(Ela) ─ Oh! Doce noite fria

─ Oh! Lua cristalina, que aviva meus instintos femininos, transformando-me em aprendiz.

(Lua) ─ Respire fundo, antes de iniciar a longa caminhada noite adentro, seres noturnos vão te infernizar, esqueça as aventuras meu boêmio.

(Ele) ─ Oh! Triste noite fria

─ Oh! Lua prateada que convoca lobos famintos enviando-os a minha amada.

(Lua) ─ Daqui de cima assisto a tudo, e manipulo as pobres almas, enfraquecidas, desamparadas, desiludidas e apaixonadas.

(Ela) ─ Oh! Noite iluminada

─ Oh! Lua tão bonita, guie os meus passos inocentes, proteja-me de todo inconsequente, seja parte de mim.

(Lua) ─ Minha pobre alma, já faço parte de ti, tão feminina, misteriosa, hipnotiza pra lhe servir, tão geniosa e complicada é a menina de fases.

(Ele) ─ Oh! Noite irritante

─ Oh! Lua atrevida,

A cada minuto que passa longe de minha amada, sinto menos a vida.

(Lua) ─ Vejo algo cativante, quase uma ressurreição, um casal de viajantes, se beijando lá no chão, vejo fogos de artifícios estourando entre as línguas. Vejo os lobos pelos bares e o reinicio de duas vidas.

Constatação

As pessoas são estranhas e agem de modo singular, cada qual se preocupa somente com seu bem estar, e o mundo que se exploda.


Essa singularidade me espanta, não quero seres iguais, nem diferentes, somente aprecio seres humanos.

─ Pena que eles estão em extinção.

terça-feira, 22 de março de 2011

SÓBRIO


Gustav Klimt "O Beijo"

E ela o atacou, o possuiu ali, no auge da sua embriaguez e gozou esquecendo-se dos princípios, entregou-se aos instintos e foi aquela mulher que ele sempre sonhou possuir.


Ronronou como uma gata, satisfeita após o ato, banhou-se e saiu sem olhar para trás, abandonando o objeto utilizado para seu prazer adormecido em meio a lençóis torcidos.

E ele atacado, foi possuído ali, no auge de sua alegria e gozou esquecendo-se dos carinhos, ganhou a briga contra os princípios e teve em seus braços uma mulher libertina.

Ressonou como um menino cansado e rolou na cama abandonado, e nos lençóis retorcidos adormeceu, sentindo o cheiro do amor.


domingo, 23 de janeiro de 2011

O TEATRO

PALHAÇO BÊBADO (CHICO EDUARDO)

Em algum lugar existe um bar, e nele há uma mesa ocupada por uma única pessoa, ela busca a companhia de bebidas e conversa com seu copo de uísque, observando todos ao redor.
Tudo ali gira de uma forma mágica, como se vivesse em um mundo paralelo onde não há regras, não há problemas, não há inimigos, não há limites.
Ele se equilibra em suas pernas como se aprendesse a andar, sorri descaradamente para as damas ausentes e brinda aos motivos ébrios e fúteis.
Ele sonha com as impossibilidades e canta a música que toca ao fundo, como se fosse um artista em seu palco ele encarna o personagem e ignora os tolos que não compreendem o que se passa ali.
A mais bela encenação existente, um ser totalmente sem mascaras e sem fingimentos mostrando como todos gostariam de ser, feliz ele se equilibra em uma única perna e desafia a gravidade, cai e levanta, ri de si mesmo, e persiste a tentar novamente, nunca desistiu de nada e não será por um tombo que começará.
Ele valsa a música que só ele escuta, e quer que todos sejam seus amigos, sai abraçando a todos sem reservas, sem pudor, é uma pena que ele não possa se abraçar.
Ele se torna um homem rico cercado de amigos e paga a todos uma rodada, ele é solitário e vive em um teatro, onde o único que realmente vive é ele.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A RAINHA ESCARLATE


Gustav Klimt "adão e eva"



Brasil, 1932.




Deslizou as mãos pelo vestido escarlate estendido sobre a cama, sua seda macia e brilhante fizeram as lembranças de anos vividos retornarem à memória tão ressequida pelo tempo, tempos áureos onde as cores vivas se estendiam por sua pele e por seus cabelos, trazendo filas infinitas de homens à sua porta dispostos a tudo e a pagar qualquer preço por um pouco de sua atenção, levantou-se e caminhou até o espelho, sentou-se em sua penteadeira e iniciou um ritual sagrado que se repetia por incontáveis anos, passou o rouge nas faces e nos lábios, chamou Verônica, uma de suas meninas mais promissoras, que entrou em seu quarto com seu sorriso mais descarado.

─ Madame Gabrielle, o salão está lotado, tens que descer logo, todos perguntam como está sua saúde.

─ Verônica, faça um de seus penteados, um digno de minha pessoa, esta é a ultima noite que visto o vermelho.

Madame Gabrielle voltou aos seus devaneios, enquanto Verônica tagarelava sem parar e iniciava o penteado em seus cabelos, olhou-se no espelho, seus olhos cor de jade já não tinham o mesmo brilho como na sua juventude, seus cabelos ruivos agora estavam quase totalmente brancos, com exceção de algumas mechas vermelhas que produziam um contraste interessante na cortesã, sua pele continuava alva, porém o tempo deixou suas marcas, demonstrado toda sua crueldade, concluiu com desgosto que sua vida passou muito rápido, mas que guardava em sua memória cada minuto do que viveu. Não se recordava de sua vida antes de se tornar uma cortesã, bloqueou essas lembranças para não se tornar fraca e vulnerável diante daqueles que sentem prazer provocando dor física e psicológica.

Lembrava-se de sua primeira vez, uma dolorosa lembrança com um velho tropeiro grotesco que a fez sentir nojo e dor, o odor de cachaça e sujeira. A experiência foi humilhante e cruel para uma moça que foi obrigada a recorrer a sua própria carne para não morrer de fome. Depois daquele dia, decidiu que era insensível, pois ser assim tornava tudo mais fácil, porém, certo dia a sorte finalmente resolveu aparecer, um forasteiro de passagem no fim do mundo onde a pequena se submetia a esses caprichos encantou-se com sua beleza exótica, iniciou-se um jogo de sedução e prazer, carnes, cabelos emaranhados, dedos e apertos, somente as lembranças destes momentos faziam com que a chama da paixão reacendesse no interior da mulher que vivia a proporcionar essas sensações. O homem que despertou tantas emoções naquela jovem chamava-se Julian, alto, com uma pele de tom bronzeado, cabelos negros, com alguns fios grisalhos na lateral, um sorriso branco e farto, coisa rara naquela localidade. Foi ele que a conduziu do nada ao tudo, a tirou do interior e a colocou na cidade do Rio de janeiro, foram amantes e amigos e escandalizaram toda a aristocracia com a falta de pudor apaixonada que demonstravam.

Toda bonança tem seu fim, e era obvio que aqueles tempos também acabariam, Julian viu-se obrigado a escolher entre a mulher perdida e sua fortuna, pois os pais ameaçaram deserda-lo, e como mulher sensata, Gabrielle retirou-se de cena, ganhou uma considerável quantia de Julian, com a qual abriu o prostíbulo que passou a ser sua razão de viver, e o céu de muitos homens. Sua casa era conhecida como “Monte Olimpo”, uma referencia a casa dos Deuses gregos, dizia-se que o “Monte Olimpo” era o lugar onde os cariocas da mais alta estirpe sucumbiam aos prazeres da carne e onde as Ninfas e Deusas mais belas estavam aguardando para proporcionar prazer.

─ Pronto! Está lindo Madame. Agora se Madame não necessitar mais de meus serviços, descerei para receber os clientes.

─ Pode descer minha querida e lembre-se sempre Verônica, de manter o sorriso no rosto, pois aqui é onde damos alegria e paz aos que não conseguem em seu lar.

─Sempre Madame.

Com a saída de Verônica, Madame Gabrielle encheu seu copo de absinto, acendeu um cigarro, caminhou até a janela e ficou observando as estrelas. Voltou-se até a cama e vestiu o vermelho que a deixou conhecida por muitos como a rainha escarlate da paixão, abriu a gaveta do criado mudo e pegou o pequeno frasco com conteúdo precioso, despejou o líquido em sua taça de absinto e ingeriu de uma só vez.

Deitou-se serenamente em sua ampla cama, fechou os olhos e morreu sorridente, seu ultimo pensamento foi Julian, recebera a notícia de sua morte naquela manhã, ele foi a única pessoa que ela amou e as melhores lembranças, a sua vida se foi com ele, viveu para amar e morreu amando e cada vez que se deitou pensou nele, cada toque de outro homem sentiu os toques dele, cada minuto de prazer foi projetado em sua imaginação ao seu amado, entregou sua alma e foi sua perdição, não havia lugar para amor na vida que escolheu, ou se vive o amor ou acaba-se junto com ele.






















segunda-feira, 13 de setembro de 2010

(Aos homens, o texto abaixo é apenas uma brincadeira, não se zanguem)

Toulouse Lautrec
Monólogo de Uma Feminista


“A utopia do relacionamento: Não há “amor recíproco feliz”, somente um momento ilusório, onde tende-se a imaginar que está no relacionamento perfeito, quando isto não existe. Tende-se a perdoar atos injustos, ferindo nosso princípio de honra, integridade moral, a troco de nada.”







─ Ok! Peguei pesado, mas é mais ou menos isso que os homens fazem com nós mulheres delicadas e sonhadoras, nos iludem e nos moldam ao seu escárnio de prazer e muitas acham isto tudo. Eu quero muito mais, minha alma evoluiu, são séculos de manipulação masculina, agora é minha vez.



─Me chamo Georgiana, não sei bem o porquê, acredito que isso se deve ao fato de minha mãe ser uma fissurada no livro “Orgulho e Preconceito” de Jane Austen, talvez pela duquesa, ou fui um bebê com cara de macho, e por não poder me chamar George, chamou-me Georgiana.



─Hipóteses e hipóteses, muito bem, isso não vem ao caso, a grande questão é que tive uma ideia revolucionária... fundarei um partido político.



─ Ah! Não faça essa cara de espanto, sim, porquê não?



─ Um partido político que se chamará “Revolucionárias Esquerdistas Centradas em Idéias Feministas Extremistas” ou simplesmente ( RECIFE).



─ Eu sei que você acha que estou pirada, mas simplesmente sou uma moça cansada de sofrer injustiças, como: Não receber um telefonema no dia seguinte, ser ignorada pelo homem com imaginava casar e ter filhos.



─ E isso dói, dói muito... Só que está dor só dura até descobrir que ele já é casado e pai de cinco filhos.



─ Ai a dor vira alívio por não ter parado de tomar a pílula, pois com certeza a pensão séria péssima, com tantas bocas para ele alimentar.



─ Enfim com base no meu histórico de sofrimento nas mãos de crápulas, decidir fundar um partido político, mas ainda não sei por onde começar.



─ Todo partido tem uma ideologia, a minha ideologia pode partir do seguinte pré suposto: Deixo bem claro que a economia do país continuará capitalista, mas os homens em si tornaram-se “pessoas” socialistas.






Explico: Teoricamente e utopicamente, em um país socialista o governo é dono de tudo, o meu partido levantará a bandeira dos homens tornarem-se “bens” do Estado, para usufruto da população feminina em geral.



─ Em resumo, não haverá mais casamento, nem namoro, nem noivado, os homens ficaram a disposição feminina, sem o direito de falar, ou tentar ludibriar nossos corações já tão machucados.



─ Qualquer tentativa de rebelião por parte deles, será tratado a mãos de ferro ( Risos).



─Acho que me empolguei, isso está mais parecido com ditadura do que com o socialismo, e olha o que conseguir: Juntar ideais tão opostos em uma única finalidade “ o bem de todas as mulheres da nação”.



─ Bom vou-me agora, se houver mais delírios de uma feminista, eu volto, Caso contrário viverei mais uma desilusão.